Cidadania não é torcida: o custo real do analfabetismo político
A frase atribuída ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht tornou-se um clássico do pensamento sociológico: "O pior analfabeto é o analfabeto político". Décadas após a sua popularização, a provocação permanece incômoda e contundente. No entanto, no debate contemporâneo, o analfabetismo político ganha contornos mais complexos do que a simples recusa em votar ou a falta de interesse por assuntos do Estado. Trata-se, sobretudo, da incapacidade de compreender como a engrenagem pública impacta a vida cotidiana e da decisão de terceirizar os rumos da sociedade.
É compreensível o desapreço popular pela classe política. Escândalos repetidos, discursos polarizados e a sensação de distanciamento entre as promessas de campanha e a realidade das ruas geram um ambiente de desilusão. Contudo, existe uma diferença fundamental entre a crítica consciente às instituições e a alienação generalizada. Quando o cidadão declara "não gostar de política" e se abstém de compreender seus processos, ele não se isola do sistema; apenas permite que outros decidam por ele.
O analfabetismo político manifesta-se de diversas formas na rotina social:
Na desconexão entre causa e efeito: A dificuldade em associar o preço do transporte, a qualidade da saúde pública ou a carga tributária às decisões tomadas em câmaras municipais, assembleias e no Congresso.
Na confusão de papéis institucionais: A cobrança de atribuições do Executivo a parlamentares, ou vice-versa, o que enfraquece a fiscalização dos mandatos.
Na transformação do debate em interesses pessoais: A substituição da análise crítica sobre projetos e propostas pela defesa incondicional de figuras públicas ou bandeiras partidárias.
Superar essa lacuna não exige formação acadêmica em Ciência Política, mas a consolidação de uma cultura de educação cidadã. Compreender a separação dos Poderes, acompanhar a destinação dos orçamentos públicos e exercer a cobrança contínua — para além do período eleitoral — são tarefas essenciais para a manutenção da democracia.
A política, em sua essência, é o instrumento pelo qual uma sociedade estabelece suas regras de convivência e prioridades orçamentárias. Achar que é possível viver à margem dela é uma ilusão cobrada diariamente no bolso, nos serviços essenciais e nos direitos de cada indivíduo. A neutralidade diante do espaço público não é uma postura de isenção, mas uma entrega silenciosa de poder.