CRIME, GANÂNCIA E TRAIÇÃO: O TRÁGICO FIM DE BERENICE E O CERCO QUE FECHOU A ARMADILHA
O que leva a vida de uma mulher de 60 anos a valer menos do que um acerto trabalhista? Por trás da brisa pacata do Litoral Norte de São Paulo, uma trama de frieza, ocultação de provas e abuso de poder começou a ruir. Na noite da última segunda-feira (3), a Polícia Civil colocou algemas em mais uma peça central do chamado "Caso Berenice": um policial militar da reserva, capturado em uma casa na Praia do Estaleiro, em Ubatuba.
O desfecho preenche de indignação as lacunas deixadas no dia 30 de junho, quando Berenice Ramos de Aguiar desapareceu sem deixar rastros. A promessa era simples: uma carona dada por sua patroa, dona de uma pousada onde a idosa trabalhava havia apenas quatro meses. A versão oficial contada pela empresária era de que a cozinheira teria sido deixada, em segurança, num ponto de ônibus. Contudo, a tecnologia e o rigor da perícia científica do Litoral Norte desmontaram a mentira peça por peça.
A ciência contra a mentira
Dentro da caminhonete da empresária, a perícia encontrou o rastro do horror: vestígios de sangue humano e as marcas inegáveis de dois disparos de arma de fogo efetuados de dentro para fora do veículo. A cozinheira não foi ao ponto de ônibus; foi assassinada no próprio dia em que desapareceu, dentro do carro, sob o pretexto manipulador de que seria levada ao hospital. O motivo? Uma disputa envolvendo o pagamento de verbas trabalhistas.
A teia do crime envolveu um núcleo familiar e operacional brutal. A empresária — apontada como mandante do homicídio — já está atrás das grades, assim como seu sobrinho, de 31 anos. O marido da empresária, o ex-policial militar recém-preso pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de São Sebastião, é acusado de ter ajudado na "desova" e no transporte do cadáver até uma área de mata de difícil acesso em Angra dos Reis (RJ).
Por ter a condição de militar aposentado, o ex-policial foi escoltado e transferido para o Presídio Militar Romão Gomes, na capital paulista.
Queima de arquivo e tentativa de impunidade
A reconstituição dos fatos revela o desespero dos acusados em apagar as pegadas do crime: houve reparos apressados na caminhonete usada na execução, descarte e substituição de celulares, exclusão de dados e alteração ostensiva da cena e dos vestígios para tentar enganar os investigadores.
Uma força-tarefa que envolveu cruzamento de dados telemáticos, rastreamento de veículos, análise de câmeras de monitoramento e diligências entre São Paulo e Rio de Janeiro garantiu que as provas falassem mais alto do que o silêncio imposto à vítima.
"Foi uma investigação complexa, conduzida com rigor técnico e integração entre equipes, que reuniu provas periciais, dados de inteligência, análises de imagens, rastreamento de veículos e diligências em diferentes cidades. Cada elemento coletado foi essencial para reconstruir a dinâmica do crime, identificar a participação dos envolvidos e representar pelas medidas cautelares que permitiram o avanço das investigações. O trabalho continua até a localização e prisão do foragido", afirmou o delegado André Costilhas, delegado seccional da Polícia Civil em São Sebastião.
A caçada policial ainda não terminou, mas a mensagem deixada pela resolução do caso é cristalina: nenhuma tentativa de ocultar a verdade é capaz de resistir à força do rigor técnico e da justiça.