Portal Bastidores NewsVoltar à capa ›
Geral / Arquivo

O Apagão da Coerência: O bolso do cidadão paga a conta do silêncio político em Caraguatatuba

Há 28 minutos Leitura de 3 min Por Guilherme AAraújo - Jornalista Investigativo MTB 79157 | Escritor | Ativista Político | Gestor em Políticas Públicas | Palestrante | Negociador e Mediador de Conflitos | Membro da ABI/RJ nº E-002885
O Apagão da Coerência: O bolso do cidadão paga a conta do silêncio político em Caraguatatuba

A política, em sua essência, deveria ser o exercício da memória, do compromisso e da coerência. No entanto, o cenário recente em Caraguatatuba desperta no eleitorado uma incômoda, mas necessária reflexão: até que ponto os interesses da população são colocados em segundo plano quando o jogo do poder entra em campo?

A recente discussão sobre a Contribuição para Custeio da Iluminação Pública (CIP) expõe um abismo entre o discurso de representatividade e a prática da gestão pública. O estopim dessa reflexão veio à tona após uma entrevista do ex-prefeito Antonio Carlos da Silva ao programa Falou Tá Gravado, apresentado por Odilon Miau. Questionado sobre os rumos e a cobrança atual da taxa na cidade, o ex-mandatário declarou, de forma surpreendente, que não estava acompanhando o assunto e que desconhecia os detalhes que envolvem a CIP.


A história que o silêncio tenta apagar

A declaração causa profundo espanto por um fato histórico incontestável: a CIP foi implantada em Caraguatatuba sob a gestão do próprio Antonio Carlos da Silva, por meio da Lei Complementar nº 52, aprovada em 17 de dezembro de 2013.

A legislação estabelecia uma regra clara de justiça fiscal: passados cinco anos (60 meses) da implantação do sistema, a cobrança deveria ser reduzida automaticamente para 50% do valor. A lógica era simples e correta: após esse período, os investimentos realizados na modernização da iluminação pública estariam amortizados. O contribuinte, portanto, deveria ver o alívio refletido em sua conta de energia.

Entretanto, o roteiro dessa promessa mudou de rumo de forma drástica. Sob a gestão do atual prefeito Mateus Veneziani da Silva (conhecido publicamente como Mateus Silva), que é filho de Antonio Carlos, o governo municipal enviou à Câmara um projeto de lei que revogou essa redução automática, optando por manter a cobrança no patamar de 100%. Na época, a justificativa apresentada foi a necessidade de manter o equilíbrio financeiro, garantindo que a medida seria apenas temporária e que adequações futuras seriam feitas na lei.

Já se passaram cerca de sete meses desde a mudança legislativa. Enquanto a prometida adequação segue engavetada, o cidadão de Caraguatatuba continua pagando a conta cheia — literalmente no escuro quanto ao cumprimento da promessa.

O impacto da desatenção e a pretensão ao poder

Essa desconexão com a realidade local ganha contornos ainda mais graves diante das pretensões eleitorais de Antonio Carlos da Silva, que se apresenta como pré-candidato a deputado estadual.

O contraste gera um questionamento inevitável para o eleitor: se o ex-prefeito não acompanha sequer as decisões da gestão do próprio filho — decisões estas que ele mesmo iniciou lá atrás e que impactam diretamente o bolso de cada morador da cidade —, como pretende representar e defender os interesses de toda uma região na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp)?

A representação pública exige atenção constante, sensibilidade social e vigilância. Delegar ao esquecimento uma taxa que onera diariamente o orçamento familiar, sob a justificativa de "não estar acompanhando", soa como um preocupante sinal de desinteresse com o cotidiano do cidadão comum.

Enquanto a prefeitura não apresenta os motivos práticos e os estudos que justifiquem a manutenção da cobrança em 100%, e enquanto os bastidores políticos se movem em busca de novos mandatos, o contribuinte de Caraguatatuba segue com a mesma dúvida. A luz das ruas pode estar acesa, mas, para o bolso do cidadão, o cenário ainda é de total penumbra.

Compartilhe
‹ Voltar à capa