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O Silêncio dos Pratos Vazios: O que a pressa nos impede de enxergar na calçada ao lado

Há 34 minutos Leitura de 2 min Por Guilherme AAraújo - Jornalista Investigativo MTB 79157 | Escritor | Ativista Político | Gestor em Políticas Públicas | Palestrante | Negociador e Mediador de Conflitos | Membro da ABI/RJ nº E-002885


Todos os dias, o despertador toca às 6h. Você corre para o banho, toma um café rápido, confere as notificações no celular e sai. Na pressa de não perder o ônibus ou de fugir do trânsito, os olhos se fixam no horizonte ou na tela do aparelho. O foco é chegar. Mas, no caminho, há uma realidade que a nossa mente aprendeu a "deletar" para podermos seguir adiante sem culpa: o homem deitado sob o papelão, a mulher que estende a mão segurando uma criança no colo, o jovem que limpa o para-brisa em busca de moedas.

A fome e a extrema pobreza urbana não são invisíveis por falta de luz; são invisíveis por excesso de pressa.

Segundo dados recentes sobre desigualdade, milhares de famílias em nossas metrópoles vivem hoje em situação de insegurança alimentar grave. Isso significa, na prática, que o ato simples de abrir a geladeira e escolher o que comer — algo natural para quem lê esta reportagem — é um luxo inimaginável para quem está na calçada ao lado.

A anestesia social

"No começo, as pessoas olhavam nos meus olhos. Hoje, parece que sou feito de vidro", relata Marcos Silva, de 42 anos, que vive nas ruas da capital há dois. Ele explica que a dor física da fome é terrível, mas o desprezo dói mais. "O pior não é não ganhar a moeda. O pior é quando fingem que eu não estou aqui."

A psicologia chama isso de dessensibilização sistemática. Diante de um problema que parece grande demais para resolvermos sozinhos, nosso cérebro cria uma blindagem emocional. Passamos a ver a miséria como parte da paisagem urbana, quase como se os postes de luz e as pessoas sem teto pertencessem à mesma categoria de objetos inanimados.

No entanto, essa anestesia tem um custo alto para a nossa própria humanidade. Quando nos tornamos imunes à dor do outro, fragmentamos a nossa capacidade de empatia e solidariedade, pilares básicos de qualquer sociedade saudável.

O prato vazio tem pressa

Enquanto debatemos grandes teorias econômicas ou nos distraímos com as polêmicas das redes sociais, a fome opera no tempo presente. Ela não espera o próximo ciclo eleitoral, a aprovação de uma reforma ou a melhora do PIB. Quem tem fome, tem pressa hoje.

A reflexão que fica não é sobre culpa, mas sobre responsabilidade compartilhada. O que fazemos com o privilégio de ter um teto e uma refeição garantida? Olhar nos olhos de quem pede ajuda, apoiar projetos locais de distribuição de alimentos ou simplesmente cobrar políticas públicas eficazes são passos ao alcance de todos.

Da próxima vez que você sair de casa com pressa, tente um exercício simples: diminua o passo por um segundo. Olhe ao redor. A miséria que ignoramos hoje é a prova de que, como sociedade, ainda estamos falhando no básico. E o primeiro passo para mudar essa realidade começa ao deixarmos de ser cegos para o óbvio.

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